O ataque dos aplicativos assassinos

Por Felipe Cabral - @F3lipeCabral

“Não sabemos o que é ser infinitamente bom. Sabemos o que é ser relativamente bom. E sabemos que não somos capazes de ser bons toda a vida e em todas as circunstâncias. Falhamos muito. E depois reconsideramos, o que não quer dizer que o reconheçamos publicamente.” (José Saramago, 2005)

 

Produtos eletrônicos só se tornam “lixo”, isto é, só são deliberadamente descartados por duas razões: obsolescência ou dano. E adivinhem qual é o maior motivo responsável pelo descarte de centenas de celulares, computadores, tocadores de mp3, calculadoras, video-games, entre outras coisas que nos fazem cyborgues nos dias atuais? Aumenta de level quem, além de responder, indicar números, dados e pesquisas sobre a obsolescência programada desse nicho nos últimos anos.

Muito bem, mas fazer essa afirmação, chegar a esse quadro, talvez não seja tão difícil. Vamos alimentar essa bateria com algumas perguntas e uma pitada de ironia. Nesse engatinhar tecnológico do Século XXI já fomos levados e desejar mais bytes do que somos capazes de processar e com isso tanto plataformas cada vez mais sofisticadas como suportes tecnologicos cada vez mais sedutores são postos no mercado. E quando algo assim é posto em prateleiras, sempre na urgência de uma nova edição ou na preemência de um mais moderno porvir, temos uma pilha de coisas que ficaram e muitas que ficarão para trás. Mas por quê?

Há quem diga que o lixo eletrônico é o mais tóxico e contaminante tipo de lixo. Já outros o consideram quase ouro nas mãos de quem sabe o que fazer com ele. Sendo uma coisa ou outra não importa: há de se pensar o que fez com que tomassemos uma decisão de consumo no passado que redundou um futuro de lixo. E por falar em futuro…

“O tempo das verdades plurais acabou. Vivemos no tempo da mentira universal. Nunca se mentiu tanto. Vivemos  na mentira, todos os dias.”

José Saramago. Jornal Sol, 2008

 

 

 

O famoso desenho estadunidense Futurama (imagem acima), com doses de ironia e bom humor, no episódio três de sua sexta temporada, intitulado “Attack of the Killer App” (Numa tradução livre seria algo como “o ataque do aplicativo assassino”), deixa nas entrelinhas e nas sátiras rasgadas, perguntas sobre Lixo Eletrônico e sobre o universo das “redes sociais”, tomando como cenário o próprio mundo projetado da série.

O desenho começa com uma cena simbólica: o prefeito da cidade, com “grande e tedioso prazer” (sic) anuncia a abertura de mais um evento anual de reciclagem de lixo eletrônico. E como primeiro ato solene, joga fora uma “velha e ineficiente” máquina de manipular votos.

Então, a equipe da Planeta Express, empresa de entregas interestelares, incluindo Fry (um dos personagens principais) e todos os demais da trupe, vão fazer o descarte de uma caçamba de lixo. No desenho, não há regiões do planeta que recebem o lixo e sim um outro planeta, só de lixo, ironicamente chamado de “terceiro mundo”, no qual extraterrestes, incluindo “crianças ets”, trabalham cuidando de tudo.

 

O planeta é circundado por anéis de lixo, como os de Saturno, no qual flutuam computadores, celulares, eletrodomésticos, entre outras coisas. E, também com ácida ironia, a aparição deste planeta é acompanhada de uma trilha sonora indiana, convocando uma memória de terceiro mundo associada a da Índia que é reforçada pelo sotaque indiano dos ETs que ali estão.

 

 

 

A equipe parece horrorizada com a cena, mas ao voltarem para a terra uma novidade já os faz esquecer de tudo: o lançamento de um novo e sensacional celular, chamado de EYEphone. Isto desencadeia outra cena pitoresca: milhares de pessoas aguardam numa fila quilométrica para comprar o tal aparelho. Uma fila tão grande que perdura horas a fio noite, a dentro. Fry, o rapaz do século XX, anuncia “me sinto como um zumbi sem cérebro“. As referências e paródias com a Apple são tão grandes que fica difícil não perceber as ridículas cenas reais que a companhia foi capaz de promover, com lançamentos de produtos tidos como “revolucionários”, “inovadores”, “marcos históricos de uma era”.

Por fim a história do episódio mostra uma ridícula e acirrada disputa entre o robô Bender e Fry, no qual vence quem conquistar um milhão de seguidores na rede social “Twitcher”. O robô conquista um número cada vez mais crescente de “seguidores” em sua rede, usando vídeos jocosos de cenas do cotidiano, de acidentes, e de cenas da privacidade alheia, ao passo que Fry fica em conflito pois quer manter-se longe de “apelações” mas não consegue com essa postura aumentar seus “seguidores”. No entanto, em vistas de perder a aposta, Fry vê uma cena absurda de sua melhor amiga no vestiário com uma verruga cantora nas nádegas (detalhe: a verruga tem o rosto e o nome de Susan Boyle). Fry então grava a cena e compartilha publicamente em sua rede, alcançando, para azar da amiga ciclope Leela que começa a sofrer bullying pelas ruas, um milhão de seguidores.

Nos segundos final o desenho mostra como a empresa do EYEphone aproveita usuários com muitos seguidores para disseminar marketing e vender mais produtos, gerando assim mais obsolescência.

 

 

Ficam deste “quadrinho animado” acima, retrato de um futuro presente, algumas possíveis considerações e perguntas:

- Qual é o passado-presente do lixo eletrônico? É o desejo frustrado de uma sociedade de consumo? Ou é a renovação do simulacro de um subjetivo eu-moderno?

- Quem está na última linha da cadeia de transformação do lixo é tão diferente dos “humanos normais” que é quase um ser extraterreno? Em suma medida: quem é responsável pelo lixo? O criador ou a criatura?

- Onde estão as máquinas obsoletas de fazer votos? Quais são as presentes e quais serão as futuras? Governos e ações políticas também tem sua obsolescência programada?

- Mercantilização da privacidade: quanto vale a publicização da individualidade?

- Disputa de audiência: mudaram os suportes, os meios e as ferramentas, mas a lógica tem sido a mesma?

- Redes sociais, especialmente as de mainstream como Facebook, Twitter e outrora Orkut, se tornaram grandes intermediários disfarçados de ferramentas de rede, gigantes de informação pessoal com finalidade de venda de dados para companhias que querem prospectar tendências de mercado. Mas também foram e estão sendo reapropriadas por alguns grupos, possibilitando ações de pressão público-política como as vistas em ocasiões como 15M (movimento dos Indignados),  Primavera Árabe, Stop SOPA e até em algumas mais próximas daqui como na Campanha Banda Larga e na Campanha Mega Não! Entretanto, o saldo entre um uso e o outro é extramamente desigual, ficando boa parte dos acessos resignados ao zumbizantismo digital. Como favorecer a reapropriação de ambientes e criar novos espaços? Como promover a diáspora para hipercampos livres do capital numa sociedade controlada por fomentadores do capital?

Para quem quiser assistir ao desenho, deixo aqui o link. Não tenho direitos autorais sobre ele, mas como entendo que, mais do que arte, é material de possível uso educativo, que junto dessa provocação leva a reflexões sobre o funcionamento social, entendo que cabe a desobediência civil de publicá-lo sem qualquer autorização dentro de uma rede social privada de vídeos. Façam bom proveito!

 

 

 

 

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