Quando a formação é refém do mercado

O desenvolvimento industrial e tecnológico trouxe uma série de consequências sociais que refletiram na situação educacional, entre elas a mudança nos “meios de produção”, com a desvalorização do capital pelos recursos naturais e força de trabalho, para uma grande valorização dos bens intangíveis, como o conhecimento.

As universidades e escolas de qualificação profissional ainda se orientam segundo uma organização e uma metodologia de ensino de décadas atrás. Se comportam como grandes centros de treinamento, para suprir as demandas técnicas do mercado. Mercado este que cada vez mais pressiona os currículos das universidades e escolas, para atender suas necessidades operacionais. Com essa nova organização, criou-se a cultura do imediatismo e do resultado rápido por parte dos educandos.

Por outro lado, algumas organizações não governamentais que se propõem a oferecer treinamentos e cursos de qualificação profissional na área de TI também replicam o que o mercado já faz há muito tempo, oferecendo treinamentos no padrão cópia e cola (taylorista-fordista), pelo qual os cursos não estimulam o pensar, o empreendedorismo e a sustentabilidade local. Essas entidades sociais sempre tiveram como  missão a busca pela justiça social e pelo convívio em comunidade. Mas por que se permitem oferecer cursos contra seus próprios ideais?

Diante desse cenário, “mercado e resultado rápido”, a formação é condicionada a conhecimentos e habilidades específicas, que não modificam a atitude em relação à pesquisa. Nesse sentido, cada vez mais ferramentas com códigos pré-configurados abstraem conhecimentos e conceitos tecnológicos, criando uma sensação no educando de domínio sobre a tecnologia. No entanto, cria-se uma dependência dessas ferramentas e rotinas.

Quando a formação se apoia principalmente nessas ferramentas automatizadas, resultados de “montagens” e configuração de sistemas, as tarefas se tornam fáceis para os educandos. Pouco se cria e a prática profissional se torna refém de roteiros pré-determinados, onde o educando não é estimulado a entender os conceitos e padrões  técnicos, e sua preparação não promove situações problemas. Nesse ambiente de aprendizagem, fica mais difícil para os educandos apreciarem o valor dos conceitos, da análise, a compreensão, e tomarem decisões sobre a realidade que os cerca.

Rodolfo Avelino é professor da Universidade Cidade  de São Paulo, diretor e educador da ONG Coletivo Digital e componente  da organização do Congresso Internacional de Software Livre (Conisli).

Artigo originalmente publicado na Revista Arede


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Comentários   

 
Pedro Debs Brito
+1 # UmaCascaDeNoz - pt.1Pedro Debs Brito 17-07-2012 03:52
Rodolfo,

Em texto publicado no blog UmaCascaDeNoz: umacascadenoz.blogspot.com.br/ .../..., o autor argumenta sobre a maneira distorcida que as universidades englobaram em seus conteúdos programáticos, no lugar do sujeito crítico, a formação do sujeito técnico que sabe apenas o executar e não o pensar sobre aquilo que produz.

Tal ideia tem reflexo na figura do extensionista, oposta à do educador que, segundo Paulo Freire, é aquele que busca estender seus conhecimentos e suas técnicas a outro ser humano desprovido de tais conhecimentos. Nesse caso, o professor indica pelo menos duas coisas: a primeira é que enxerga o aluno não como sujeito cognoscente mas como objeto. Como coisa que pode inserir o que for de seu grado. E em segundo lugar, que a falta de diálogo para se produzir o conhecimento abre espaço para uma educação dominadora.

Acredito que essas ideias, apesar de terem sido observadas e produzidas durante longo período da ditadura no Brasil, estejam em voga ainda hoje. Discutir a universidade é questionar que profissional queremos que saia dela? A partir dessa primeira questão é que se abre o leque para qual o perfil do professor, por quais métodos se chegará em tal solução, estabelecimento de objetivos e metas, etc.
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Pedro Debs Brito
+1 # UmaCascaDeNoz - pt.2Pedro Debs Brito 17-07-2012 03:52
Por ora, que já é dado a má formação de profissionais, acredito que reside na mão dos estudantes e dos professores a função de transformar e buscar novas maneiras de produzir este conhecimento. Freire já deu uma dica de caminho: o diálogo. E essa função de conversa está potencialmente em qualquer "canto" da internet. A internet enquanto meio compartilhado em dada comunidade é uma solução mais do que plausível para este problema. O método que você tanto comenta no texto, entendo eu, que é mudado quando o paradigma educacional muda: da extensão ao diálogo.

Dessa maneira, vejo que a primeira mudança estrutural que deve acontecer é no âmbito da implementação de uma pedagogia pautada na conversa.
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